domingo, 6 de maio de 2012

A primeira vez


A esta hora, desfrutando do calor das minhas formas mais íntimas, das minhas curvas e profundidades mais misteriosas, da barreira tão pública e simples, o prazer consolidado me trouxe lembranças de outro dia, ainda há nem tantas luas atrás, da primeira vez deste desfrute comum.


Foi inesperado e bem vindo o peso sadio de pele, músculos e articulações, da insinuação tátil ritmada da carne ágil pelos caminhos que adentrou, por onde desbravou em carícias, caminhos nunca antes afagados por um homem. De aceitação, só pude, no calor da surpresa, ronronar aquiescente da ousadia simples daquele homem que, pela primeira vez em minha história, tivera o desprendimento de encher suas mãos com meus cachos, acariciando com a ponta dos dedos minha cabeça inquisidora, inquieta por saber que haverá de diferente neste homem intenso ou nesta mulher que, de dentro de mim, ouço agradecer, silenciosa, um gesto tão comum.
Era minha primeira vez no mundo das carícias por entre os cachos, e já tão ágil aquelas mãos não se detinham até achar-me a raiz crespa e seus rijos espirais em crescente. Estava surpresa de não haver surpresa alguma em lembrar que o cabelo era uma barreira que ninguém se propusera ultrapassar. Temi os olhares de quem pudesse ali, em público, ver-me e sentir-me entre surpresa e satisfeita de saber que entre nossos corpos a sintonia do incomum estaria no cotidiano. Talvez ele não soubesse ser o primeiro e só sorrisse muito por seu costume desconcertante de ser intenso desde os pequenos detalhes. Talvez só sorrisse muito por ter-me surpresa, quase recuando por uma fração de segundo da hesitação, quase aproximando sob o calor da vastidão da sensação simples. Talvez ele nada precise saber porque sinta tudo.
Inédito. Nem pelo amor piegas, que na adolescência tinha por suporte e companhia a efervescência dos hormônios do amor eterno e das juras cálidas, eu pude sentir desbravado esse terreno, que parece encantado de uma assustadora bruxaria de estética e desconhecimento, devoradora de quem se aproxime.
Nem na escola, mesmo se estivesse devidamente preso, entre as mais íntimas amigas, o ritual de tocar o cabelo ia além de uma avaliação rápida do tipo do cabelo ao tipo do uso de creme. Por outro lado, os cabelos mais longos, os cabelos que nos ensinaram mais lindos e melhores eram alvos das carícias e apreciações, desde os tenros dentes de leite, pelo tácito convencimento de que eram os merecedores e possíveis de serem acariciados.
Mesmo quando veio o politicamente correto e trouxe consigo os comentários elogiosos, os apoios afirmativos, a coragem ficou lá onde deve nascer em cada um e não veio sequer flertar com meu cabelo, despropositada e desinteressadamente que fosse. Por isso, eu que não sabia ser uma mulher pequena, de cabelos por entre os dedos das mãos largas, fiquei assim, cheia de pueril primavera dentro de mim, cheia do clichê das borboletas e girassóis a indagarem donde veio esta claridade solar que iluminou a noite.
Talvez ele não saiba mesmo da eternidade íntima que vivemos ali em público, entre amigos e transeuntes, em uma noite qualquer, insinuando-se febril no nosso primeiro verão.
Já não sei mais dizer do lembrar. Sorrio.

sábado, 21 de abril de 2012

Do deitar

Ei, Pai!

Disse aquelas lorotas de crescimento, de venha o que venha, de 'dê-me o desafio', influenciada, má influeciada, diga-se de passagem, pelo meu comportamento entre corruptela de católica recalcada e esse autobastar-se insano. Disse e não me arrependo, só porque sou irremediável arrogante. E estou tentando mesmo não me arrepender, não retroceder. Não, não, não, negando tudo!
Eu resolvi deitar no chão e enfrentar minhas expectativas, meus defeitos e o que mais vier, mas pedi por aprendizado esse peso absurdo, esse pesar ininterrupto.
Do cálice, não quero nem mais uma gota, me basta arrotar. E basta.

O que é isso, companheira?

As longas unhas, o desbotamento do esmalte dourado e o incômodo, com o aspecto decandente de puta errante, me lembram, mais uma vez, que estão, de companheiros silenciosos, ao meu lado, aqueles velhos hábitos que eu propagandeei mortos. E qual não é minha surpresa, ao descobrir-me serena  em tão ilustre companhia. Sem drama, sem dor, sem aquele luto ostensivo de novamente ser vencida e os gritos silenciosos no meio da madrugada. Não são só meus velhos defeitos que pediram passagem para sorrir do passar do tempo. Também estão aqui aquelas velhas respostas a eles, aquelas velhas expressões, os esgares de fastio, e a ausência cálida até mesmo destes. Os sorrisos que não compreendem, que já me são amigos de tão costumeiros. O incômodo não morreu. Faleceu o medo de ser puta errante, de ser um ser só, de contar apenas com a tração arredia dos meus quatro membros.
De novo, ouço sorrisos, as vozes são conhecidas, o ambiente também é meu, ele e nada mais, ele é questionavelmente meu. E lá vai meu dramalhão musicado transbordando, meu filme antigo em vivas cores e a comodidade sinistra da situação que já conheço, desse fogo cruzado que, ironicamente, só  é amigo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Dramas monográficos

Parece uma brincadeira sinistra depois de quase 4 anos na faculdade você não conseguir definir seu tema de monografia. É daquelas ironias que lhe esperam ávidas na esquina, e esta é especialmente escrota, uma vez que ela esperou-lhe anos ali rindo e desanimando, duvidando e desejando que, enfim, você chegasse. Mas, falando desse modo, faz crer que esta ironia é externa, de um força, uma entidade que age a despeito da sua vontade. Não é, e é. Poderíamos colocar na extensa conta do destino, sabendo-o já irônico e traquina, estariam as contas acertadas, mas, ainda, com o saldo negativo: você não tem um tema.
Parece também que o drama não é meu com esses pronomes impessoais e generalizações externalizadora. Pois bem, ele é meu e mexicanesco, com direito a trilha sonora que, espremida, vira um rio de lágrimas, neste caso, ainda não vertidas.
Sem dúvidas e mais elocubrações, estou certa: foder-me-ei neste processo, desde já.

domingo, 18 de março de 2012

Bordado rebuscado

Há anos, muitos anos, me acusam de rebuscamento da expressão da minha linguagem, de florear. E, há uns poucos anos, desde que descobri-me prolixa, aproveitaram o meu mea culpa e botaram na minha conta um exagero quase rococó. E, ao fim e ao cabo, nunca sei ao certo discernir de todo quem está falando da minha forma de expressão e quem está tentando se referir às impressões que tem sobre meu ego e suas tendências.
Adjetivo tudo quanto posso e não faço segredo de minhas tendências verborrágica, de fala confusa e, quem sabe, tudo isso acompanhe meu ego um tanto arrogante, que nunca se importou muito com essas rotulações além da dobra da esquina. Atrás dessas rotulações quase sempre estiveram um dos dois pressupostos: de que sou inteligente e/ou de que sou arrogante o suficiente para sustentar a sensação de verdade do primeiro pressuposto.
O quanto me importo com isso varia muito de acordo com minha possibilidade de viver com isso a cada momento. Desde o "pare de falar como um adulto" da quinta série do fundamental, até o "você é confusa, não entendo nada que você fala, mas prefiro que você fale no meu lugar" do nível superior, sempre tive a impressão que me imputavam com algum desdém um poder que talvez eu nunca estivesse à altura de corresponder.
Mas, a despeito do poder dessas expressões, e das gírias que por gosto ou necessidade de integração absorvi, em geral, ao fim e ao cabo, não costumo me importar depois de dobrar a esquina. É talvez a minha mais acintosa demonstração de arrogância: suponho sempre poder ser compreendida quando escrevo.
Uma vez, minha professora de redação disse na sala de aula:
- Evitem períodos longos. São propensos a erros, pois são difíceis de redigir e costumam ficar confusos...
E olhou para mim:
- Mas se gostarem e preferirem, então, sejam competentes.
E sorriu.
Não que eu creia plenamente nessa minha competência, mas, no mínimo, a simulo com alguma frequência no meu dia a dia. Não costumo me importar, mas em dias de calcinha pelo avesso tenho vontade de dizer que a língua está aí é para ser usada mesmo, explorada, sorvida em grandes doses. E quando me imputam esse misto de prodigiosidade e arrogância eu vacilo, vacilo entre o riso e a incerteza, se as pessoas não se dão conta de dizerem isso de alguém que cresceu criando estratégias de só ter que escrever os dois porquês que consegue empregar bem. Aí eu também rio secretamente, com essa ironia que volta calada e dura para aquele que a diz.
Tergiverso, mas estou certa dos contornos dos meu bordados, que não são limites, já que no conteúdo eu transbordo.




Vivo falando disso

sexta-feira, 2 de março de 2012

Frida querida










Querida Frida,


Estive anos a fio procurando por Ivan, apertando meus olhos míope e astigmata para enxergá-lo por aí, se bem que por vezes e vezes achasse que estava querendo ver, em algum homem o George Black dos nossos sonhos. Passei horas a fio na rede buscando por seus nomes e, pior, projetando em alguns homens o Ivan que eu tanto desejava.
Procurei-o tanto, mas nunca me recordava de você além do nome, daquela sua forma de ser branca tendo a tez preta encarnada nas pardas formas quadradas.
Procurei-o furiosamente no primeiro amor, donde pensava extrair de um frágil Rafael o Ivan que eu acreditava estar oculto no predestinado. Mas eu não suportei ser apenas mais uma, entende, querida? Eu (não) tinha um Rafael que me fez as juras apaixonadas pelas quais você acalentou desejos secretos e dissimulados, algum dia em sua vida, que deslumbrou meus sentidos e encheu os espaços da minha ansiedade.
Você sempre soube e eu aprendi tardiamente que Rafael nada poderia nos oferecer. E eu permaneci procurando Ivan, que julguei uma dia encontrar na negra tez de uma homem alto, de seu bigode respeitável de homem amadurecendo ou não, de seu poder, sua força que me impôs o doloroso limite e que sorriu sarcástico da minha dor. Ali estava o nosso tão perfeito Ivan no auge da sua real arrogância, acreditando-se e fazendo-se invencível e inquebrantável. Quase irresistível, quase avassalador. Mas eu, Frida, continuava procurando, sabendo no íntimo que a falta de uma aliança na poderosa mão nada dizia de uma possível solidão. E eu não poderia, não poderia Frida, mais do que ser apenas mais uma, ser apenas a outra.
A memória lhe ocultou a face, a personalidade em um silêncio desfigurador, e eu, continuava procurando Ivan, até o meu mundo me dizer que não suportava mais estar ocupado por sentimentos morimbundos, terminais. Ele reinvindicava em uma lúcida ação de despejo, para expandir, o lugar que era do meu idealizado Ivan.
Fui viver, com o espaço sujo da ocupação do meu Ivan. E só ontem, depois de tantos ontens, depois da chegada de um diferente anônimo, de um homem que ganhou nome fora do mundo de Ivan eu pude enfim entender que procurava por você.
Havia esquecido, que eu me encontrava na sua dor, na laceração que você levava no peito, que eu admirava sua força workaholic, seu sucesso e pragmatismo. Eu estava, querida, procurando-me, em você, através de Ivan, todo esse tempo. Que me encontrei, desconfio vagamente, depois que encontrei você, parece que, precocemente, estou a meio caminho de um encontro comigo mesma. Mas não tenho pressa alguma.
Seja feliz, bem como lhe imagino: uma mulher madura, do alto dos seus 48 anos, vivendo o amor, com o único Ivan possível, como o único que pode estar em nossos sonhos, bem mais que George Black.





Até, querida Frida!




http://www.skoob.com.br/livro/105393-o-primeiro-amante





quinta-feira, 1 de março de 2012

Aquele ano novo

31.12.11




Atribuiu o sofrimento daquele ano à maneira como pôde recebê-lo: calças nas mãos, suando frio, interrompendo o sacrifício de dar vazão à mistura do porre antecipado com a gula desmedida que lhe marcaram o último dia do ano. Não que fosse religioso, mas da religião construída sob sonolenta catequese sobrou-lhe o medo injustificado, mítico, do sobrenatural, expresso em uma superstição quase pueril, que lhe dava freios convenientes.
Assim, sem direitos aos ritos pré-ano novo, recebendo-o de calças arriadads quando tentou-se levantar no minuto final, pesou-lhe na alma a sinistra sensação de um ano que entrava derrotado, cheio de más possibilidades. Assim foi, segundo seu relato minunciosamente dolorido.
Por isso, naquele ano ele ia à forra, sóbrio e esperançoso, cumprir a ritualística e ter um ano vitorioso. Rimavam até as suas pretensões.
Durante todo dia não ligou TV. A desesperança e a calamidade que esperassem ao menos o próximo ano para lhe aborrecer as horas vagas. Aliás, porque não o desapego? Que melhor sinal para o ano vindouro que esta disponibilidade de alma em desapegar? Mas um vinhozinho não ia mal... um vinhozinho e uns petiscos. Luzes apagadas, nada de eletrodomésticos em standby. Desapego também de todos, em seu loft razoável, na sua simulação de sucesso e na independência cômoda da família. Olhou o relógio da sala, que costumava estar impecavelmente correto, até nos segundos, em relação ao relógio do jornal matinal da melhor emissora do país. Olhava aquela certeza impassível, a sorver o vinho e comer queijo. O relógio era um simulacro perfieito de suas ambições. E perdeu-se nessas elocubrações de auto análise ao menos uns dez minutos. Ele, o relógio e sua sincronia, o jornal e suas ambições. 21:40 da noite. Antecipava mentalmente a lista de superstições já preparadas apenas para a rápida e oportuna execução. A mala de viagem, as lentilhas, as uvas... Este ano assim! Promoções e louvores! Que venha o ano!
A febre dessas antecipações foi aos poucos cedendo lugar à leveza que o vinho ia dando ao corpo. Mas e porque não uma soneca? Para que serve o despertador? Olhou novamente seu metafórico relógio: 22:01. Uma sonequinha, para entrar o ano acordado, revigorado. Só uma sonequinha a encurtar o tempo de espera dos prazeres e reconstituir o ânimo que lhe faria sorvê-los com a devida decência de um ano começando.
Não acordou na hora programada: 23:05. Melhor, acordou 23:45, adrenalina espalhou-se por seu corpo. Preparar, preparar, preparar, todos os materiais para as superstições, alinhar-se aos festejos do mundo. Correu e deparou-se com a infantilidade de sua ansiedade ante todos os preparartivos prontos, só restava-lhe tirar o espumante da geladeira.
Retirou e andou devagar para a sala, sentindo o espumante muito gelado querendo obrigá-lo a largá-lo o quanto antes. Mas ele segurava o ano.
Apenas 5 minutos, 5 minutos.
Sentado? Em pé? Sentado?
Em pé, com honrarias da espera.
Faltam 2 minutos.
Sentado com a superioridade da tranquilidade vencedora.
Em pé. Em pé!
Falta 1 minuto.
Segundos.
Contagem regressiva.
5, 4, 3, 2...
O estampido de seu champanhe ressou sozinho no ar, parecia mesmo uma largada queimada. E com a algazarra que não  veio envergonhada em seu rosto, o cenho intrigado, as mãos geladas de segurar o espumante.
Aconteceu algo terível. Ele pensou.
Algo terrível consternou o mundo. Algo terrível era um presságio terrível.
Controle na mão, controle das emoções, ligou a tv.
Na emissora mais popular do Brasil as pessoas pareciam extremamente alegres, já um  tanto altas, eufóricas. 01:05 da manhã no horário de verão.
Sentou pensando e bebendo o espumante: não aturava outro ano mal vindo. Resolveu consigo que o ano tinha passado por cima de si depois de planos feitos, coisas acertadas, ciclos concluídos, enquanto ele experimentava o prazer de dormir de barriga cheia. E tudo isso não podia ser mais que um presságio de prazer e gozo do sucesso. Meio contrafeito, meio resoluto foi dormir novamente, naquele ano em que absolutamente tudo podia acontecer.





terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Inércia

Hoje desisti de ir trabalhar, zanzei pela rua, saboreei-a insípida, barulhenta, hostil. Como tudo mais, como esses sonhos rachados que jazem no chão. São todos meus. E ando par aí, por cima deles, dentro deles, rasgando-me toda para pari-los precoce, para dizê-los alheios. Aí, então, só a inércia é companheira. O rótulo perfeito para meu vagar, para este esgar vespertino da hora que não passa das 15:10h, para a minha intemperança de esperar o inesperado como a redenção que venha, como presente, antes do natalício.
Como tudo mais.
O mundo se consumindo, se barbarizando com requinte e eu aqui, querendo com força que ele acabe em uma manhã serena, para que também eu não me resposnabilize nem pelo meu, nem pelo seu fim. Pois, da inércia, o único presente sincero é esse covardia licenciosa, criminosa, indolente que açucara os dias com preguiça.

Bem, bem... o tempo passa, já são 16:53.
Já são 16:54, como tudo mais.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Então, bom Natal. E amanhã a gente conversa





Este texto é clara corruptela de um texto de Sâmia Souza


Fora as críticas ao consumismo desmedido, à deturpação da data cristã, à hipocrisia patente e o mensagismo esperado, nossa conversa de Natal fica para amanhã, o famoso dia seguinte, provavelmente o dia 26. Entre a rememoração das dores e delícias das comemorações da data, teremos algo vivo em nossa rotina, desde um Cristo menino até uma ressaca moral pertinente.
Cresci na igreja dando as mãos em comunidade e repetindo como um mantra entre abaixadas e levantadas: "que Cristo cresça e eu desapareça". Sentido que nunca havia alcançado para além dessa mania católica do drama sacro, do suplício de entrega em favor de Deus e da religião, ao menos discursivamente. Mas, o "despareça" sempre foi um problema. Para além da morte, em vida, o desapareça, para mim, sempre conflitou com o crescei e multiplicai-vos.
Nunca havia contestado o crescimento desse Cristo que sempre enxerguei completo, pleno. Afinal, que Ele cresça em nossas vidas. Bem, hoje entre novas grafias e verbos eu repenso essa colocação. Em pleno Natal, mulheres agredidas, conflitos violentos, falta de respeito regadas a muita música depreciativa, eu me pergunto com meus recalques católicos: que fazemos desse Cristo menino, cheio de graça e do potencial divino, que nasceu de novo, ontem em nós? Dentro de nós sua figura inspira o cuidar laborioso, contínuo, desafiador desse religare com Deus no qual a religião pode ajudar.
E cuidar de Cristo não é fácil. Reportar-se a uma figura ideal, capaz ao máximo, Magnânimo, quando nosso espelho cristão diz-nos condescendentemente que somos mesmo irremediáveis pecadores. Imagine então ele criança, crescendo, ou querendo crescer a contento.
Daí pra frente, tudo depende. Depende de quem é seu Cristo, de como ele pode, de como você deixa Ele crescer em você e se, de acordo com você o Supra Sumo do Deus encarnado permite a segregação por cor, orientação sexual, filiação política e a justificação raivosa de toda a forma de segmentação e segregação sob Seu Bendito Nome. Se são mesmo, as mesquinhezas incoerentes e difíceis, as coisas imputáveis ao Maior Espelho da cristandade. E se essa incoerência básica pode fazer parte de uma tentativa sincera chamada religião.
E pensando bem, tudo isso é uma grande projeção do Eu, porque Eu é bem egoísta e tendenciado a sabotar, com incoerências básicas e cruelmente pueris, o religare. Então, que até a morte, o Eu desapareça mesmo, porque já dizia Voinha, a gente envelhece pra ficar sabido e ficando sabido tem que estar velho e mais lento, se não, faz merda. E que Cristo cresça e o Eu desapareça, na medida do possível, não para aniquilar-se, mas para apequenar-se a caber confortavelmente no Nós.
Mas isso são elocubrações cristãs.
A ressaca moral, que deveria ser também um exercício, ou melhor, um sintoma sincero cristão, serve a desinteressados e ateus e bastaria, na incredulidade frente à religião. Uma dorzinha de consciência, seu limite latejando e nossa conversa de amanhã pontuada pelos espasmos do corpo em rendição ao espírito.
Então, bom Natalício de Cristo, vamos dar nome aos bois. No caso de você não ser cristão, boa ressaca, tome todas e amanhã conversamos: eu, você, o mundo e os analgésicos. No caso de você ser cristão, boa ressaca, tome todas, quem sabe sentir dor em cada parte do corpo te lembre da pequenez da dimensão do Eu no mundo e lhe dê uma pista do que é espelhar-se em Cristo.
No mais, todos os sinceros votos você compra em 10 vezes sem juros ou simula na web.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quando a morte nos sonda companheira

Os cachinhos sedosos contrariando a tendência de quem mora na ilha, o sorriso maroto brincando no rosto por entre dentes montados, enquanto aperta os olhinhos que parecem desde sempre delineados com seus longos cílios escuros. É uma lembrança serena e sorridente de nossa adolescência, de um bem querer presenteado pela amizade que tinha pelos irmãos mais velhos. Veio de brinde um pequeno irmão irreverente.
Não tivemos tempo de decepções ou impasses aborrecidos, nem da profundidade cúmplice de grandes amigos. Por isso, nossa relação segue sem mácula, sem dor, na beleza da camaradagem, de um bem querer genuíno que acalenta o coração, daquele gostar de graça, sem pedido, sem cativar, sem impor.
Sinto-me velha, quando me assalta esse horror da morte precoce da juventude, do eterno se que angustiará pais, irmãos, amigos e amores quando da lembrança de quem, em tenra flor, foi-se. De quando diremos quantos anos faria, como estaria, do que nos faria rir.
Sinto mais horror da morte não lhe ter sondando companheira, solidária como foi a meu tio-avô, findando-lhe a vida com suavidade, em respeito à trajetória e em repúdio a dor da debilidade acentuada. Logo o coração lhe traiu, como se não aguentasse qualquer vilipendiação que a vida lhe pudesse ofertar, o pouco ou o muito da loucura que a vida oferta aos jovens como afronta à eternidade, à posteridade besta da boçalidade que só nos vem com o patente medo da morte.
Com poucos dias de diferença duas famílias sentiram a dor da tenra ceifa e do enfim encontro, de seu filho crescente e de seu patriarca antigo, perto do findar do ano, como se estes três morressem a tempo de fechar o ciclo, de lembrar-nos da nossa brevidade, da inconstância da vida e da naturalidade da morte.
Tudo assim me parece um sinistro clichê, mas que fazer se em constância a morte se impõe genuína imortal? E, mais que ela, a dor, na brevidade ou na longevidade de nossos amores. Parece mais eficiente desejar que a morte nos seja companheira solidária do que, que neste ano vindouro, a vida nos seja feliz. Mas o mais eficiente nada nos diz da vida. Vamos de novo, como em todo ciclo, saudar o ano sem o ressentimento de nossas dores, só com as saudades de nossos amores e os exemplos de seus atemporais tempos de passagem por nossa nave Terra.